sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Revoltante


O que foi aquilo na prefeitura de SP ontem??? Que absurdo! A forma como a polícia enfrentou os estudantes é inaceitável, é revoltante!

Estudante não é bandido, é instruído, reclama direitos e protesta absurdos. Fala demais. Reclama coisas que o governo não quer que venha a público. Em suma, atrapalha o trabalho dos verdadeiros bandidos, que estão no poder público roubando os nossos direitos, aprovando, por exemplo, - no mesmo espaço onde semanas atrás aprovaram aumentos milionários para eles prórprios - aumento de R$5 no salário mínimo. É bom saber que quem depende do mínimo em breve poderá comer duas coxinhas a mais por mês. Revoltante!!!

Que país é esse, onde os estudantes apanham, os bandidos são legitimados por voto público e o trabalhador...coitado do trabalhador..sofre..

Temos que repensar essa democracia em que vivemos. Queremos viver assim?



.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

O futebol e a passividade popular


Publicado originalmente no Observatório da Imprensa
http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=628FDS009

Após ver, mais uma vez, cenas de vandalismo e protesto por conta da derrota de um time do futebol, alguns pontos importantes surgem para serem pensados. Com certeza, pelo fato de tanta reclamação e comoção não se aplicarem a questões de maior importância social e humana – como a precariedade dos hospitais, segurança, educação etc. – elementos históricos e políticos devem ser observados.

Porém, por se tratar de um canal tradicionalmente dedicado à crítica e à observação da imprensa, vale um olhar sobre este assunto a partir do papel da mídia enquanto agente incentivadora dessa identidade cultural largamente usada para classificar o brasileiro como povo que se preocupa e protesta por melhorias em seu clube de futebol, mas não faz o mesmo em relação à sua cidade e país.

Como exemplo disso, no dia seguinte à eliminação do Corinthians pele o modesto time colombiano Tolima, em uma emissora de televisão (Band) onde às 11h15 da manhã tem início uma programação diária sobre esportes (entenda-se, futebol) que se arrasta até quase às 15h, por volta de 13h30, Datena, Neto e Ceará, começam a questionar a revolta dos corintianos (que quebraram tudo ontem), dizendo que "para outros assuntos o brasileiro não reclama com tamanha veemência".

Logo em seguida, em gravação no Parque São Jorge que mostrava os estragos feitos pela torcida do Corinthians, aparece em cena um famoso repórter esportivo da Rede Record. Datena, ao reconhecer o jornalista, nomeia a emissora concorrente e alerta: "Fiquem na Band, não mudem para a Record, lá não tem programa esportivo agora."

Marketing não entra em campo

A paixão do brasileiro pelo futebol pode não ser gerada pela mídia, é bem anterior ao surgimento da televisão, por exemplo. Mas que a insistência (em especial do programa citado, que apesar de passar mais de três horas diariamente discutindo futebol, questiona tais exageros) tem papel fundamental na formação dessa "identidade nacional", isso tem. Afinal, se querem que o povo brasileiro reclame do governo suas necessidades básicas, por que o próprio Datena, com a visibilidade que tem na mídia, não fala menos de futebol e começa a apresentar matérias sociais e denúncias que sensibilizem a população a reclamar seus direitos?

O povo (apesar dos problemas da generalização, uso a palavra povo em referência à forma como foi usada pelo programa esportivo citado), em alguma medida segue o padrão representado pela mídia e pelo seu país. A TV insiste no futebol porque ele é muito mais que um esporte, está além do elemento cultural que representa. O futebol faz parte do jogo político e econômico.

Da mesma forma que esse "povo" reclama apenas do futebol, o Estado comemora a realização de uma Copa do Mundo em um país que não consegue sanar várias necessidades básicas da população. Do outro lado do jogo, as grandes redes de comunicação se aproveitam dessa paixão dos brasileiros para lucrar milhões por meio da formação de torcedores-consumidores e de contratos publicitários milionários com empresas privadas – em especial empresas de cerveja, elemento que segundo a mídia, alimenta os nossos "guerreiros" da seleção e não pode faltar nas comemorações pois "combina com tudo, principalmente com você".

O futebol, sem dúvida alguma, é fator cultural e paixão inquestionável do brasileiro. É saudável, é esporte, diversão e saúde. Porém, há um outro futebol (o que aparece na mídia) e que serve àqueles a quem o interesse é o lucro, acima do esporte. Vale lembrar que os responsáveis pela direção do Corinthians, eliminado pelo modesto Tolima, passaram os últimos tempos se preocupando majoritariamente com o marketing da "empresa" Corinthians na tentativa de tornar o clube uma "marca" forte. Se esqueceram que marketing não entra em campo e que deixar o futebol de lado pode ser um perigo até para quem só está preocupado com o lucro, e não com a beleza do espetáculo.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Educar e entreter: a construção da cidadania e a busca pela audiência na TV


BARBOSA, Sílvio Henrique Vieira. “TV e Cidadania”. São Paulo: All Print Editora, 2010, 104P.

Resenha publicada originalmente na revista Líbero


De um lado, uma visão predominante entre aqueles que vêem a TV como mero meio de exploração econômica, como os apresentadores Ratinho e Raul Gil, que apostam na busca da audiência a qualquer custo para manterem seus salários e status no veículo. Na direção oposta, a Constituição Brasileira que mostra o que se deve esperar da mídia e aponta, no artigo 221 que “A produção e a programação das emissoras de rádio e televisão atenderão aos seguintes princípios: I – Preferência a finalidades educativas, artísticas, culturais e informativas [...]”.
O parágrafo acima é parafraseado de “TV e Cidadania”, livro de Sílvio Henrique Vieira Barbosa. Acrescido da pergunta “é possível conciliar essas duas visões de mundo tão diferentes?”, fazem a provocação inicial do que se pode esperar das 104 páginas do texto. Como boa provocação, não pretende uma resposta absoluta. Gera, sim, bons dados, apontamentos e visões sobre o tema.
Assunto já discutido pelo autor em sua tese de doutorado, defendida na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP) em 2005, a obra está dividida em três partes e começa com uma exposição sobre “Os direitos fundamentais do Homem”, onde o autor fala sobre a origem, na filosofia grega, da noção de direitos humanos. Na primeira parte, o autor questiona a noção de cidadania e conclui que, “ser cidadão de um Estado Democrático significa ter acesso pleno a todos os direitos individuais e políticos, sociais e econômicos que assegurem uma vida digna ao ser humano em sua relação com a comunidade e a sociedade” (p.27).
“A Educação e a Comunicação” é o título do segundo capítulo e aponta a educação como fundamental para o desenvolvimento da cidadania. A partir da adaptação de um texto do educador colombiano José Bernardo Toro, o autor mostra a importância da educação para a sobrevivência na sociedade moderna e lista como capacidades fundamentais: ler, escrever, calcular, resolver problemas, analisar e interpretar fatos, compreender e atuar em seu entorno social, receber criticamente os meio de comunicação, fazer bom uso da informação acumulada e saber planejar, trabalhar e decidir em grupo. Para melhor exemplificar a educação como meio de sobrevivência na sociedade, Barbosa mostra, na comparação entre um bairro pobre e um rico de SP, “um indício claro de que a falta de acesso à educação encontra-se no mesmo nível rasteiro da ausência dos demais direitos do cidadão, como saúde, segurança e trabalho. [...] é pela educação que o indivíduo se torna consciente e, também, detentor dos direitos de cidadão” (p.40). A habilidade de “receber criticamente os meios de comunicação” ganha destaque na obra, fecha a primeira parte do livro e prepara terreno para a Parte II, que se propõe a discutir mais diretamente a TV enquanto rede midiática e suas funções na sociedade.
Ponto forte do livro, no capítulo três, o autor mostra como as tevês, com raras exceções, representadas pelas tevês educativas financeiramente dependentes do governo, são diretamente dependentes do mercado. É o critério do índice de audiência, que define o valor da inserção comercial, que irá garantir, ou não, se um programa terá sucesso de público ou se, em caso contrário, deverá passar por reformulações ou, mesmo, ser tirado do ar (p.53).
Neste capítulo, o autor mostra como “a TV se tornou refém da imagem, independentemente de sua importância no contexto social ou político” (p.56). Segundo ele, a escolha sobre qual assunto abordar depende mais dos interesses políticos e econômicos do que dos interesses públicos (p.57). A preocupação com a degradação do jornalismo é explicitada na afirmação, “na guerra pela informação e pelos pontos no Ibope, a mídia abre mão dos preceitos básicos do bom jornalismo: ouvir todas as partes envolvidas, procurar conferir as informações antes de divulgá-las, e não condenar previamente simples suspeitos ou acusados” (p.63).
Após expor o alto índice de violência na televisão, Barbosa procura mostrar exemplos de técnicas eficazes de como transmitir a “educação para a cidadania na televisão” e o Edutainment (Entertainment Education), explicado como a possibilidade de se oferecer educação de uma forma lúdica e atrativa e o Merchandising Social (inserção de temáticas sociais ao longo da programação) são as opções descritas.
Para finalizar a Parte II, o capítulo quatro, intitulado “Cidadania na TV: Uma pesquisa junto aos setores ligados à educação/cidadania” versa sobre o conteúdo de alguns programas de televisão e as expectativas e opiniões de entidades sobre o tema.
A terceira parte do livro se encarrega da conclusão. Aqui, o autor pontua algumas dificuldades do uso da mídia para a educação em uma sociedade onde, “a visão ainda dominante é que a escola procura formar cidadãos e a mídia, apenas consumidores” (p.93), e afirma caber “à escola, ao se esforçar para formar cidadãos, formar também telespectadores críticos, que não se deixem manipular como pessoas ou como consumidores” (Ibidem).
Do lado positivo, o Merchandising Social, citado como possível solução, “trata-se de uma prática bem sucedida e um exemplo espetacular de como a ficção, ao ser misturada com reais questões sociais, pode colaborar intensamente na educação para a cidadania” (p.94).
Para que o público possa ser educado e receba criticamente o conteúdo da televisão, o autor finaliza o texto defendendo a “inclusão do estudo da mídia no currículo escolar” e a “regulamentação da Constituição no que se refere ao dever das mídias eletrônicas de investirem em programas voltados para a formação da cidadania” (p.98).
Com formação strictu sensu em Direito e Comunicação, Barbosa une com maestria nesta obra questões fundamentais sobre as obrigações legais dos meios de radiodifusão enquanto concessões públicas e o que os telespectadores deveriam receber dessa concessão. Como provocação lançada no início do livro sobre a possibilidade de unir os interesses comerciais à noção de cidadania, o autor lança luz ao exemplificar casos de sucesso na tevê. Porém, mostra que a maioria dos casos positivos está nas tevês por assinatura, restritas a apenas 8,4% dos lares brasileiros. Há muita luta pela frente para se atingir o ideal de “TV e Cidadania”, mas a leitura dessa obra é um caminho esclarecedor para se entender o estado da questão e traçar planos plausíveis para esse casamento possível.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

A Internet como voz democrática que serve à voz preconceituosa


INTOLERÂNCIA
A voz preconceituosa na web
Por Rafael Lourenço em 16/11/2010
em Observatório da Imprensa


No final da década de 1950, em um texto chamado "Classroom without walls", Marshall McLuhan, um dos nomes mais conhecidos da comunicação, previu que, "no futuro, uma rede mundial de computadores deixará qualquer informação disponível para os estudantes". A previsão, que rendeu acusações de delírio ao teórico canadense, já se faz realidade e torna a rede um portal quase mágico a uma quantidade inesgotável de conhecimentos que todos os alunos têm (ou deveriam ter) à disposição.

A internet, enquanto ferramenta de comunicação e informação, é, sem dúvida, uma das maiores revoluções tecnológicas da história da humanidade. Facilitou pesquisas, criou o que alguns chamam de "São Google", possibilitou trocas de informações instantâneas, entretenimento e, principalmente, criou uma alternativa ao modelo onde "poucos emissores falavam para muitos receptores".

Essa nova possibilidade de se tornar um emissor sem necessariamente ser um jornalista e atuar em um veículo de comunicação, possibilitou à internet, por meio das redes sociais, ser uma boa opção de voz democrática. Ao contrário da grande imprensa, onde constantemente há acusações de não haver espaço para outras vozes que não a dominante dos grandes (e poucos) conglomerados de mídia, na internet, independentemente da opção partidária, formação intelectual ou preferências sociais, qualquer pessoa alfabetizada e com acesso à rede (hoje largamente facilitado pela proliferação das lan houses), pode, por meio das redes sociais, falar e encontrar eco de outros que concordem ou discordem de suas posições.

A voz preconceituosa

No entanto, esse fato, essencialmente positivo para a consolidação de um processo democrático de comunicação (pelo menos na rede), possibilita também ouvirmos o grito de vozes altamente preconceituosas, em situações que (por favor, peço que ponderem o uso do termo) chegam a lembrar discursos fascistas de discriminação racial, social ou étnico.

Além da grande propagação de boatos – motivo central da crítica que o filósofo francês Dominique Wolton faz à internet –, vista principalmente durante o período eleitoral de 2010, após a vitória da candidata Dilma Rousseff, houve um genocídio intelectual contra os nordestinos.

Refiro-me a situações absurdas de preconceito e estupidez gritadas por pessoas que se julgam ser a elite educada do país e acusam os nordestinos de coisas que nem valem a pena citar neste texto. Sobre essa voz preconceituosa, que não foi criada, mas sim, reverberada pela internet, devemos refletir o quanto é possível a pessoas, muitas vezes com bom nível de instrução escolar, usar o meio para propagar o ódio a determinados grupos de pessoas.

Para o bem ou para o mal

Além disso, vale ressaltar o perigo das falsas deduções e dos cuidados que temos que ter em concluir. Toda essa gritaria preconceituosa que vimos na rede partiu, além, claro, de ideais já compartilhados, da interpretação de um dado recebido de forma bruta: "Dilma ganhou as eleições e onde somou maior diferença foi no Nordeste, região que abriga alguns dos estados menos favorecidos da nação". O que poucos dos "revoltados" se preocuparam em verificar – não que isso justifique a revolta – é que o Nordeste não decidiu a eleição, apenas ajudou a aumentar a diferença.

No Brasil, mais do que em qualquer outro lugar, preconceito é atestado de burrice. Somos um povo misturado. Afinal, quem é o brasileiro puro? Ou quem é o mais ignorante, se alguns "instruídos" pelas universidades se mostram ignorantes no respeito às diferenças e na análise e interpretação de dados?

Nascido e criado na região Sudeste, devo dizer que tenho vergonha da fama de preconceituosos e ignorantes que alguns poucos (pois tenho certeza que se trata de uma minoria) estão espalhando sobre nós nas redes sociais. Dessa vez, a internet mostrou seu lado negativo. Por sorte, podemos usar desse mesmo recurso para refletir e mostrar nossas opiniões contra qualquer tipo de preconceito burro.

Como toda inovação, a internet pode ser usada para o bem ou para o mal. O perigo, neste caso, é que não é possível evitar que ela "caia em mãos erradas", pois a ferramenta está acessível, de uma forma ou de outra, a quase todos.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Dominique Wolton na Cásper. Informar é Comunicar?


Informar, significa, necessariamente comunicar? Com uma resposta negativa a essa pergunta, o sociólogo francês Dominique Wolton iniciou, na tarde da terça-feira, dia 26 de outubro, na Cásper, o seminário “Imagem e Informação”, promovido pelo Grupo de Pesquisa Comunicação e Cultura Visual, do Mestrado da Faculdade Cásper Líbero.

Durante sua palestra, Wolton apresentou aos presentes algumas de suas posições sobre a disjunção entre Informar e Comunicar, seu ponto de vista positivo a respeito dos veículos de comunicação de massa e negativos em relação a Internet.

Negociação e respeito às diversidades culturais foram alguns dos argumentos de Wolton para a efetividade do processo comunicacional. Para o sociólogo, o ato apenas de informar, não é suficiente gerador de comunicação. Disso depende, além das condições do receptor, uma constante relação em dois sentidos: negociação e coabitação. “Há liberdade de comunicação. Você pode dizer o que quiser mas o outro pode aceitar ou não a sua fala. Por isso, conseguir atenção é um constante ato de negociação, não basta apenas lançar a informação”.

Questionado sobre a responsabilidade dos jornalistas no processo de transformar informação em comunicação, Wolton afirmou que devem parar de apenas produzir informações e levar em conta o entendimento e as condições do receptor, sejam sociais, geográficas ou culturais.

Com posições um pouco diferenciadas em relação aos veículos de massa e a Internet, Wolton, em defesa aos “mass media” alegou que o receptor é “menos bobo do que se pensa” e não é manipulado e alienado pelos meios como muitos dizem. Por outro lado, a Internet, com um “sem número” de emissores possíveis, lança conteúdos por vezes grosseiros na rede sem nenhuma (ou pouca) possibilidade de fiscalização. “É fácil produzir e distribuir informação para a Internet. Mas para comunicar não basta essa rapidez, precisa tempo, negociação e coabitação”.

Wolton encerrou sua palestra citando o Brasil como um país onde, apesar de existirem problemas sérios de preconceito, há coabitação como em poucos outros lugares e afirmou sermos privilegiados pois sabemos conviver em paz. Ao encerrar, pediu, “Tentem manter essa coabitação, ela é rara em outros países”.
Original em: http://t.co/9xPtnP4

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

A divisão apocalíptica entre o bem e o mal e o poder questionável da grande mídia



Nesses tempos de eleição, e principalmente nos tempos da bipolaridade partidária brasileira entre PT e PSDB, a construção de algo que seria o “bem total” contra outro algo representando o “mal total” se faz clara em qualquer discussão um pouco mais acirrada sobre política. A bem da verdade, vemos hoje claramente essa distinção ser feita pela grande mídia. Os veículos de maior circulação – O Estado de S. Paulo, Folha de S. Paulo e Veja, defendem, declaradamente ou implicitamente o partido (teoricamente) mais conservador, representado hoje por José Serra. Do outro lado, veículos de menor circulação, como Carta Capital e Caros Amigos, apóiam Dilma e a continuidade do governo PT.

Movidos, seja por interesses ideológicos sejam econômicos, ambos os lados, não sempre, mas em muitos casos, pintam o cenário apocalíptico a qual me refiro, onde a eleição, na verdade, é uma guerra entre o bem e o mal. A impressão que fica é que, quem vencer irá implantar uma ditadura e terá poderes absolutos de implantar suas vontades – as mais obscuras possíveis como os “boatos” têm espalhado por ai, tais como liberar aborto, drogas, armas, homossexualismo, fechar igrejas, proibir símbolos religiosos, privatizar até o “Corcovado” e por aí vai.
Independentemente do gosto partidário, fico pensando, será que as coisas são assim tão simples como o cenário mostra? Será que, a essa altura, um debate maniqueísta é o mais adequado (até nos meios acadêmicos)?
Sobre isso, abro algumas questões para serem pensadas - criticadas ou apoiadas até por que são questões contraditórias, apenas alguns parâmetros:

1 - A mídia impressa ser altamente partidária, chega a ser normal, faz parte do jogo, basta vermos a história da imprensa e entendermos que os jornais e revistas são empresas privadas e independentes. O problema é oferecerem a pluralidade em seus slogans e venderem na realidade panfletos. Ao saírem de cima do muro e assumirem declaradamente suas posições – caso do Estadão e da Carta Capital - não estão sendo desonestos, apenas partidários – e cumprindo o que afirmam.
2 – Por outro lado, a imprensa, em sua essência deveria refletir a opinião pública. O jornalismo ideal – se é que se pode pensar em um jornalismo ideal – seria, antes de qualquer coisa, um serviço de utilidade pública, cliente da população e não das empresas privadas. Vendo por esse lado, qual a normalidade em um país onde o governo tem 86% de aprovação ser posto na imprensa, muitas vezes, como algo negativo? E a opinião pública dos 86%, não conta? Não importa mais refletir a opinião pública? Ou se trata agora simplesmente de tentar moldar a opinião pública aos interesses privados?
3 – E quanto aos meios de radiodifusão? Esses sim, apesar de empresas privadas, são concessões públicas. Dependem do Estado para funcionar, tanto no que se diz respeito a autorização legal, quanto estrutural de transmissão nacional. Não deveriam esses, pelo menos, cumprir a legislação (que diz que esses meios deve(ria)m atender a prioridades de programas educacionais e culturais) e servir de meios de educação e informação para a população e não aos interesses privados?
4 – Longe de querer negar o poder da grande imprensa, gostaria apenas de lembrar que, até o momento, apesar da grande mídia apoiar os candidatos do PSDB, estamos caminhando (ao que tudo indica) para o terceiro mandato do PT. Agora fica a pergunta: A imprensa tem realmente esse poder todo? Por que não consegue eleger seu candidato? Ou será que consegue?

Além da comodidade de dar a grande imprensa um poder descomunal e culpá-la por tudo (coisa que em alguns momentos da história foram possíveis, mas não sempre), é importante ressaltar que ainda temos diversas outras fontes de influências e mediações, como família, amigos, igrejas, partidos, dentre outros, que também influenciam a população e a ajuda a seguir alguns princípios, por vezes diferentes dos propostos pela imprensa.
Mas é claro que deveríamos pensar na necessidade de ensinar nas escolas, formas de receber criticamente esses meios de comunicação, para que as informações que recebemos, muitas vezes desencontradas, sejam recebidas de forma critica e proveitosa. Concluo esse artigo, defendendo que o caminho para esse debate é a educação, a única forma de alcançar o esclarecimento, se é que alguns governantes têm interesse nesse tal “esclarecimento” da população. Enquanto isso, seguem os debates maniqueístas entre o bem e o mal.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

A mercantilização dos valores educacionais e o caso “Neymar Futebol Clube”


Foi-se o tempo em que os educadores tinham o pleno direito de exercer sua função primeira: a de educar pura e simplesmente. Foi-se o tempo em que o respeito ao mestre ocorria pela experiência e maior conhecimento daquele que ensina, seja um professor ou um treinador esportivo, e não pelo preço. A partir do momento em que tudo vira mercadoria e que, a regra é o lucro a qualquer custo, parece que nada mais é necessário além de parecer ser a “decisão mais cabida pensando no bem patrimonial da empresa”.
A verdade de que “manda mais quem pode mais” e, nesse caso, poder mais é “custar mais”, o dinheiro fica acima do que se poderia julgar normal e ético e coisas estranhas começam a acontecer. O professor (da rede privada) começa a ter que medir as palavras com os alunos, que se julgam no direito de fazer o que quiserem, pois a própria televisão os ensinam que a lógica dessa geração é a do “estou pagando”. Aprendem rapidamente que o valor que eles têm na sociedade é o valor que seus pais pagam de mensalidade e que professores desempregados têm aos montes por aí para substituir aqueles que foram ‘queimados’ por eles. “Melhor perder o professor do que as mensalidades”, pensam alguns donos de instituições de “educação (?)” privada no país. Na rede pública, apesar de não haver a questão da mensalidade, há os bônus pagos pelo governo para as escolas que tiverem bons resultados e ausência de alunos reprovados ou de recuperação. Certa vez, ao participar de uma reunião escolar de uma escola pública, ouvi uma certa professora dizer para uma aluna (do ensino fundamental), acompanhada da mãe, a seguinte e bizarra afirmação: “Você não será reprovada este ano, fique tranqüila, não iremos permitir. É bem verdade que você merece, mas não podemos perder o bônus que o governo nos paga no fim do ano”. Perdeu-se o respeito. Logo cedo a criança aprende que quando se trata de lucrar, dá-se um jeitinho, o famoso e cancerígeno 'jeitinho brasileiro'.
O que está acontecendo no futebol, símbolo maior de identificação nacional, segue a mesma lógica, porém, com proporção consideravelmente maior, claro. Perdeu-se por completo o respeito. Quem procura ‘educar’ determinados comportamentos recebe como prêmio a demissão. O caso Neymar – Dorival Jr, que está repercutindo por esses dias, é um exemplo claro dessa lógica, mas não é o primeiro e está longe de ser o último exemplo. “Estamos criando um monstro”, disse o treinador René Simões após o jogo entre Santos e Atlético GO, onde o jogador Neymar xingou, sem o menor pudor, o técnico e o capitão do seu time. O técnico bancou a punição do jogador e exigiu gancho por tempo indeterminado para o atleta. Após apenas um jogo de gancho, porém, o Santos exigiu a reintegração do jogador ao time, contrariando a decisão de Dorival Jr e resolveu mandar o treinador embora para poder escalar o jogador sem problemas. Imagino que o monstro que René Simões disse que estava sendo criado acaba de ganhar respaldo após essa decisão, pela lógica simples do “sou o mais caro aqui, logo, estou acima até dos meus superiores”.
Alguns meses antes, em maio de 2010, o treinador António Carlos Zago, também ganhou de presente sua demissão, quando dirigia o Palmeiras, após repreender e afastar um grupo de jogadores que haviam descumprido o horário combinado. Imagine em uma empresa o funcionário ser repreendido por não cumprir o horário estabelecido, reclamar e conseguir a cabeça do chefe. Inimaginável, não? Nem tanto, afinal, isso depende do lucro gerado pelo funcionário e não mais de valores morais.
Jogadores de futebol do porte de Neymar e, para realizar a analogia proposta por este artigo, alunos da rede privada, são mercadorias necessárias para a roda do sistema capitalista que estamos alimentando. Enquanto produtos, são intocáveis pois estão dando altos lucros para seus proprietários momentâneos. A bem dessa verdade, o capital social conquistado não é o intelectual mais, apenas o do preço, o do “quanto custa”. No mundo capitalista onde reina essa lógica respaldada pelos meios de comunicação de massa, que premiam o comportamento desses produtos midiáticos, saem de cena os valores morais e entram os valores monetários. Fica de fora a importância e a individualidade humana para dar lugar ao acúmulo de imagens fantásticas da sociedade espetacularizada em que vivemos.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Vincere: o cinema europeu e as vantagens de morar em uma grande cidade



Recentemente escrevi neste blog sobre a minha insatisfação com os filmes do circuito convencional (comercial). Uma verdadeira mostra do auge da ‘sociedade do espetáculo’: muito barulho para nenhuma arte, característica que para mim transforma os produtos exibidos nos shoppings em algo mais próximo de propaganda (de sonhos de consumo, lugares, personagens, produtos licenciados) do que da sétima arte. É claro que esse não é o problema de 100% do circuito comercial, mas infelizmente o número está próximo da totalidade.

Mas nem tudo é espetáculo no sentido pejorativo. E é ai que começam as vantagens de morar em uma grande cidade como São Paulo, onde há um circuito alternativo de cinema que nos faz lembrar que a sétima arte está viva e produzindo obras de arte de altíssima qualidade.

É claro que morar em uma metrópole tem seu preço e esse preço às vezes é bem alto. Não caber no metrô (quase que independente do horário), encarar filas enormes para praticamente qualquer coisa (do sorvete ao carregamento do bilhete único), encarar trânsitos astronômicos e respirar um dos piores ares do mundo... mas enfim, ao sofrer diariamente com esse tipo de situação tento ver as coisas boas antes que a cidade me enlouqueça por completo..

E o circuito de cinema alternativo é uma dessas vantagens que nos faz dar valor para a cidade. Após passar diversas vezes em frente ao cinema da Reserva Cultura, que fica no mesmo prédio da Cásper (estar lá está me transformando e isso mereceria um texto a parte), resolvi entrar ontem para ver um filme recomendado por um professor do mestrado. Trata-se de um filme italiano, de 2009, chamado “Vincere” (Vencer).

O longa, ao contrário de fazer barulho para vender, mostra o barulho feito pelo ditador italiano Benito Mussolini para se transformar no líder fascista da nação por meio do cinema e da panfletagem para construir o personagem heróico do “Il Duce”.

O enrredo, porém, é focado marginalmente no drama de Ida Dalser, amante de Mussolini que, achando ser a única mulher de Benito, vende tudo que tem para financiar a panfletagem que colocaria Mussolini sob os holofotes - é e negada pelo ditador logo em seguida a sua chegada ao poder.

O drama que mostra um evento histórico da Itália, ilustra um discurso político facilmente adaptável para realidades inclusive atuais e mostra o poder do cinema e do rádio no começo do século XX enquanto veículos de massa - cenário que serviu de ‘berço’ teórico para os pensadores da escola de Frankfurt.

Bom, fica a dica. Em São Paulo o filme está em cartaz no Reserva Cultural: http://www.reservacultural.com.br/detalhe_filme.asp?id=4&filme=10

e no Cine Sesc:

O filme está em cartaz também no Rio de Janeiro, Salvador e em Recife conforme dica do site: http://www.omelete.com.br/cinemas/programacao/?programacao=vincere

Veja o trailer:
http://www.youtube.com/watch?v=ldYi82S__kY

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

O papel das "celebridades" na campanha eleitoral



Originalmente em Observatório da Imprensa


A representação e a função dos “famosos midiáticos” nas campanhas eleitorais, é um velho problema, já longamente discutido, porém pouco conhecido pelos eleitores em geral. Quando votamos em candidatos do poder legislativo (deputados federais, estaduais, senadores e vereadores), apesar de votarmos individualmente em um candidato e não no partido, temos que ter em vista que a eleição é proporcional e que os votos recebidos pelas celebridades (que na maioria das vezes sequer sabem o que faz um deputado por exemplo) são somados e revertem-se para os partidos, que elegem determinado número de candidatos (independente de quantos votos receberam), na proporção dos votos obtidos pelos candidatos populares.

Em 2006, ano da última eleição presidencial escrevi um pequeno texto sobre esse assunto e, ao ver o humorista Tiririca e principalmente a entrevista dada por ele a Folha de SP, corri meus arquivos em busca desse texto e o encontrei! (Segue abaixo). O Tiririca, representa como poucos a figura da celebridade que levanta votos para o partido em questão. Confirmação dessa lógica fica explícita quando Tiririca declarou, em entrevista a FSP, que sua campanha será toda patrocinada pelo partido que o convidou e o rodeou de assessores. Ao votar em candidatos como o Tiririca (que muito provavelmente terá uma votação alta), o problema maior não será ver o “abestado” (forma como o próprio Tiririca se intitula em sua propaganda) no congresso, mas sim imaginar que tipo e quais intenções possuem os outros candidatos que irão ao congresso bancados pela grande votação do humorista. Não é muito difícil imaginar o tipo de político que usa dessa artimanha para chegar ao congresso.

Texto de 2006 escrito com algum (?) fim acadêmico

Reforma Política, um direito do cidadão

“Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos”.
Artigo 1º. , Parágrafo Único da Constituição Federal.


Será que algum dos quase 740 mil eleitores do deputado federal eleito Paulo Maluf sabem quem é Marcelo Mariano e Neudo Gomes? E quanto aos 494 mil que elegeram o deputado Clodovil Hernandez pelo PTC? Algum deles conhece a deputada Ângela Portela?
Entre os três nomes desconhecidos citados acima, o laço que os liga é o mesmo. Todos chegaram ao congresso nacional com uma média de menos de 10 mil votos (segundo dados do TSE), carregados pelos astros que os ‘apadrinharam’.

Só para se ter uma idéia, no livro “Por Dentro do Governo Lula”, (lançado em 2005), a cientista política Lucia Hippolito afirma que nas eleições de 2002 mais de 93% dos 513 deputados federais foram eleitos com votos de legenda. Apenas 33 deputados se elegeram com votos próprios.
Professora de Sociologia e Psicologia da Educação, a autora do livro Policidadania - Política e Cidadania, Lucrecia Anchieschi, acredita no projeto de lei que prevê listas fechadas de candidatos para as próximas eleições como solução. “Os eleitores não votariam mais individualmente em seus candidatos a vereador, deputado estadual e federal, mas nos partidos, que concorreriam nas eleições com listas de candidatos pré-selecionados em convenções. Por exemplo: se um partido tiver direito a oito cadeiras, entrarão os oito primeiros nomes da lista.”
Hoje a eleição já é proporcional. A diferença é que os eleitores votam em candidatos individualmente. Esses votos, somados, revertem-se para os partidos, e cada um elege determinado número de candidatos, na proporção dos votos obtidos.

Fidelidade partidária e financiamento das campanhas eleitorais

Atualmente todo parlamentar é dono do próprio mandato. Elege-se por uma bancada e a troca por outra quando bem entender. A ideologia a história e a tradição de cada grupo partidário passa a ser secundário, e o espaço que o partido possui na mídia se torna fundamental. Segundo Lucrecia o ideal é que o candidato tenha a obrigatoriedade de ficar pelo menos 2 anos filiado.“O partido tem que ter autonomia sobre o parlamentar, pois os mandatos legislativos de qualquer natureza pertencem a ele, desta maneira o candidato que mudar de bancada, deveria perder o respectivo mandato.” Outro problema lembrado por Lucrecia é o financiamento das campanhas eleitorais. Segundo a socióloga, o financiamento deve ser feito inteiro com dinheiro público. “Não sabemos o que pessoa física e jurídica com interesses políticos diversos, pode querer ao financiar uma campanha política.” O projeto de lei que regulamentará o financiamento também está incluso na pauta da Reforma Política que deve ser votada até maio, segundo o Presidente da Câmara, o deputado Arlindo Chinaglia.



terça-feira, 24 de agosto de 2010

A pseudo Inclusão Digital e o Debate On Line

A Internet ocupa cada vez mais espaço na vida dos chamados “incluídos digitais”. Definir o que é inclusão digital e quantos são os incluídos é tarefa das mais complicadas senão impossível. No artigo “O caráter pseudo da inclusão digital” a pesquisadora Denise Correa Araújo afirma que, “seria difícil dizer até que ponto é possível afirmar que há uma inclusão digital, se considerarmos que muitos usuários da rede a usam somente para seus e-mails. Seria isso a inclusão digital?” Somado a isso, podemos imaginar também as crianças que frequentam demasiadamente lan houses como se fossem cassinos, apenas para jogos. A inclusão digital ainda me parece distorcida. Enquanto ferramenta, a Internet, para atingir o objetivo real da inclusão precisa ser usada para facilitar o dia a dia, evitar uma ida ao banco ou a banca de jornais por exemplo ou o uso do telefone além do acesso fácil a notícias mundiais e a praticamente qualquer conteúdo de interesse do usuário.

Debate on line
Semana passada, pude assistir ao primeiro debate on-line no Brasil, feito pela Folha/Uol e transmitido ao vivo por vários sites. Pelo Twitter, o debate era assistido e comentado simultaneamente gerando uma interatividade inédita.
Ao meu ver o debate propiciou ao público os principais pilares do que a Internet pode gerar de positivo e em especial um dado negativo.

Interação e convergência

Houve uma real e saudável interação e convergência dos meios de comunicação.
Qualquer indivíduo em qualquer lugar do mundo, munido de um computador conectado a Internet, pôde em tempo real: assistir ao debate, comentar o conteúdo, ver comentários de outros internautas e ler opiniões de jornalistas e especialistas que logo postaram textos na Internet (seja em portais, sites de jornais ou blogs). Alguns internautas ainda tiveram a oportunidade de fazer perguntas (previamente gravadas) aos candidatos.
Essa mudança do eixo central da comunicação (TV / Impresso) e sua descentralização para a Internet é super positiva no sentido de dar voz aos comunicados que ganham o direito de ser também e por que não, comunicadores, na medida em que de pronto (assim como faço neste texto) publicam suas opiniões.
O problema, e por isso deixei claro haver ainda um ponto negativo, é que a grande mídia e, consequentemente, a lógica capitalista é quem organiza e apresenta esse show. No momento de selecionar as perguntas dos internautas para os candidatos me pareceu (assim como a capa da revista Época sobre o passado de Dilma) que a parcialidade do meio foi embora. Em um debate onde o intuito era expor propostas, o Folha / Uol, selecionou e fez uma pergunta a candidata Dilma no mínimo constrangedora. Não era mentira, a pergunta foi baseada em fatos, porém, que nada tinham a ver com propostas. A pergunta, em linhas gerais, foi: “Como você se sente sendo o resto do PT, aquilo que sobrou e que apenas por isso foi escolhida para ser candidata?”
Não quero defender esse ou aquele candidato. Mas se é para bater vamos bater, se é para ouvir vamos ouvir. Acho que perguntas como essa não acrescentam nada a exposição de propostas. Mas se era para partir para esse lado, por que não perguntaram ao Serra, para equilibrar o desconforto, algo como: Como você se sente tendo rachado seu partido e criado inimizades com os principais ícones do PSDB? ou ainda: O que você tem a dizer sobre candidatos que assumem compromisso com um cargo público por 4 anos e largam para concorrer a um cargo melhor?

Internet, interatividade e convergência são pontos positivos, mas falta transparência. O povo não é passivo a tudo e, com um bom uso da Internet pode começar a enxergar as distorções. Mas esse ainda é um longo caminho que começa por melhores políticas de educação, a base do esclarecimento.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Começa a jornada do mestrado

Na teoria: primeiro dia como aluno da Cásper, primeira reunião oficial com o orientador, primeiro salgado na cantina, primeiro xerox, primeira aula, primeiro contato com os colegas de classe...

Na prática é o começo de uma jornada a ser cumprida em dois (curtos) anos. Muita (muita mesmo!) leitura, seminários, redações, conversas, debates e também a solidão teórica que dividirei hora com o papel hora com o meu dell.

Além da titulação, que é objetivo óbvio de todos, há algo mais. Há um papel humano a ser desenvolvido. Não quero dizer com isso que há um objetivo de se mudar algo na humanidade. Há sim, antes de mais nada, o objetivo de mudar o pensamento do pesquisador em questão, eu.

Aliado a curiosidade e a objetivos pessoais e profissionais, o segredo será entender o objetivo geral dessa nova tarefa que me surge como essencial, a pesquisa. O que é fazer pesquisa? Pior, o que é fazer pesquisa em comunicação? Qual o papel disso na sociedade? É fácil justificar a função de uma pesquisa quando se está, por exemplo, pesquisando a cura de alguma doença ou a forma mais eficiente de se produzir algo em determinado setor visando maiores lucros e sustentabilidade.

Mas e em comunicação?

Diferente de uma matéria jornalística, onde praticamente qualquer tema bem escrito e permeado por bons personagens pode virar uma boa história, na pesquisa em comunicação a pergunta é: como transformar um bom tema, recheado de teorias e conhecimentos empíricos em um bom projeto que gere algum conhecimento científico?

A pergunta para mim ainda está sem resposta e é o principal objetivo da jornada do mestrado que acaba de começar.

Existe uma comunidade no orkut chamada: “Mestrado gera traumas”. Pode ser. Depende da forma como você o encara. Se for algo prazeroso e feito por motivações pessoais dignas acredito que gere no máximo fadiga, não traumas. Acredito que gere também muito conhecimento, boas amizades e também uma boa profissão.

Avante!

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Sexo, Drogas, Rock'n Roll e Ditaduras


A década de 1960 foi palco de grandes agitações socioculturais pelo mundo. Época dos anos rebeldes, do “sexo, drogas e rock’n’roll”, de grandes revoluções comportamentais como o feminismo e até festivais musicais como o Woodstock.
No cenário político, o mundo ainda vivia o medo e a insegurança da Guerra Fria, conflito entre EUA e URSS que ameaçava eclodir a qualquer momento uma verdadeira guerra entre as duas superpotências do pós-guerra. Conforme conta Hobsbawm, “gerações inteiras se criaram à sombra de batalhas nucleares globais que, acreditava-se firmemente, podiam estourar a qualquer momento e devastar a humanidade”.
Essa guerra não eclodiu, mas apesar da ausência de guerras diretas entre os Estados Unidos capitalista e a URSS comunista, vários foram os conflitos e movimentos apoiados e financiados pelas duas potências no intuito de manter os países que compartilhavam de sua ideologia longe da ameaça inimiga. Segundo Emir Sader, “o mundo da segunda metade do século não assiste a nenhum choque armado direto entre as duas grandes potências, embora elas estivessem vinculadas a praticamente todos os conflitos bélicos locais - e foram dezenas – que povoaram a segunda metade do século XX”.
Não obstante, os EUA não conseguiram evitar a Revolução Cubana e a conseqüente implantação do sistema socialista por Fidel Castro em Cuba, ilha a 120 km do território do Presidente Nixon.
A partir daí, a manutenção do sistema capitalista no mundo ocidental passou a ser intensificada e acompanhada mais de perto pelos norte-americanos. Uma estratégia bastante usada pelos EUA foi o apoio e financiamento a golpes militares de direita na América Latina para sufocar possíveis movimentos comunistas inspirados pela Revolução Cubana. Segundo Sader, “não foi somente pela inserção direta do continente nos conflitos da Guerra Fria que a Revolução Cubana marcou tão fortemente a segunda metade do século na América Latina. Seu impacto mais direto esteve ligado às reformas que introduziu em Cuba, no momento em que se esgotava no resto do continente o ciclo econômico do segundo pós-guerra e se instalavam várias ditaduras militares como conseqüência dos conflitos gerados por uma nova conjuntura política”.

E o receio por parte dos EUA de que outros países latino-americanos se espelhassem em Cuba era real, pois Cuba, que passou a ser aliada da outra superpotência, a URSS, precisava e planejava implantar seu regime em outros países latinos para não ficar isolada. De acordo com Ricardo Rojo, “era a necessidade urgente, para Cuba, de reconstruir seus laços com a América Latina, mas estes laços já não se podiam estabelecer sobre a base de relações entre países de regime político diferente, mas unicamente a partir de revoluções socialistas nos referidos países. Em 1963, Guevara enfrentou resolutamente a realidade americana com a intenção de obter resultados nessa linha. Se a América Latina capitalista se recusava a coexistir com a Cuba socialista, Cuba encarregar-se-ia de ajudar a todos os revolucionários para que seus países deixassem de ser capitalistas”.
Para se ter uma idéia, sete dos dez países sul americanos enfrentaram ditaduras militares durante a Guerra Fria. Foram eles: Brasil, Argentina, Uruguai, Chile, Bolívia, Equador e Paraguai - no Peru sobrevivia a ditadura do general Velasco Alvarado, sem que se possa enquadrá-la na tipologia antevista por Nixon.
No Brasil, o regime militar foi implantado em 31 de março de 1964 e teve seu auge em 1968 com a edição do AI-5, que dava poderes extraordinários ao Presidente da República e suspendia várias garantias constitucionais. Com isso, o governo fortaleceu a chamada linha dura do regime militar.
O que seguiria a partir daí seriam os Anos de Chumbo, auge das repressões sobre quem não concordasse com o Regime. É nesse cenário que a Rede Globo se fortalece, estréia o Jornal Nacional e passa a ser o meio de comunicação mais poderoso do país. Carlos Eduardo Lins da Silva afirma que, “nesse meio tempo [de 1957 até 1976], a Globo realizou uma revolução técnica, gerencial e artística na televisão do Brasil. Não parecia que iria chegar a tanto quando entrou pela primeira vez no ar o Canal 4 do rio de Janeiro. Em menos de quatro anos, assumiria a liderança absoluta de audiência, a ponto de convertê-la em virtual monopólio e tornar comum a acusação de que se transformara numa espécie de um ministério extra-oficial da informação no país” Para o músico e compositor Chico Buarque de Holanda, que teve várias de suas obras censuradas pela ditadura, a Rede Globo foi além da censura oficial. Chico Buarque conta que, “Eles proibiam minhas músicas, a censura proibia algumas músicas minhas, isso que era oficial do governo. Agora a TV Globo se encarregou de ser mais realista [...] e reforçar essa censura proibindo o meu nome. Eu acho que ele (Roberto Marinho) é mais poderoso que esse cidadão Kane inclusive. O cidadão Kane nunca imaginou que tivesse esse poder todo. O Roberto Marinho hoje é a força política mais importante em um país de 150 milhões de habitantes. Nada se faz sem consultar o Roberto Marinho. É assustador”.
A situação descrita por Chico Buarque parece ilustrar a ficção de George Orwell e o seu “Grande Irmão”. Quando seu personagem Winston, habitante de Oceania diz que, “o nome do cidadão era removido dos registros, suprimida toda menção dele, negada sua existência anterior, e depois esquecido. Era-se abolido, aniquilado; vaporizado era o termo corriqueiro”.